José Eduardo dos Santos foi a
cabeça de cartaz do comício com que o seu partido encerrou a campanha eleitoral
esta quarta-feira, em Cacuaco, Luanda. Porém a novidade da reunião dos
"camaradas" foi a presença de Fátima Roque, responsável durante muitos anos,
pela política económica da UNITA.
A menos de 10 quilómetros de distância do local onde Samakuva dirigiu
um dos dois comícios do dia,
Fátima Roque e a filha Cristina,
especialista do Centro de Estudos Estratégicos da África do Sul, ocupavam dois
lugares na tribuna de honra.
Em Luanda já há alguns dias, Fátima Roque, expulsa do "Galo Negro" há
mais de seis anos, disse à Voz da América que sabia bem o que estava a fazer no
comício do MPLA: "Estava lá como cidadã independente, como angolana, como
pessoa muito responsável, e com consciência do acto que estava a realizar".
"Fui porque quis, ninguém me obrigou, antes pelo contrário fui
muitíssimo bem recebida, e bem tratada; fui como convidada especial, gostei de
ver aquela alegria, gostei do discurso do chefe de estado, presidente do MPLA,
concordei com 80 por cento do que o presidente mencionou, era capaz de
provavelmente, de assinar por baixo, grande parte do discurso e das reformas
que ele acha que são necessárias para que o país possa mudar. Fui, não como
militante da UNITA, do MPLA ou de qualquer outro partido, mas como militante de
Angola, com um coração muito grande onde cabem os 16 milhões de angolanos. Fui
lá com plena consciência do que estava a fazer. Não sou vendida, nunca me vendi a ninguém , e muito menos me
venderia ao MPLA . Fui como cidadã independente, como angolana. Tenho obrigação
e o direito de me informar para votar em consciência".
Fátima Roque dera nas vistas, primeiro por ter ido ao comício do MPLA,
depois por se ter apresentado no Cacuaco com uma camisola e com um cachecol do
partido no poder e, por fim , por ter dito no local que iria votar no partido
que tem no coração, expressão que casa com um "slogan" do MPLA. Porém, observa ela,
não há nada entre os dois.
"Não há absolutamente nada entre eu e o MPLA. É uma frase que eu digo
muitas vezes em circunstâncias diferentes. Eu voto, faço e exerço qualquer
função com o coração. Portanto, eu vou votar no partido que tenho no meu
coração. Só eu e Deus sabemos que partido tenho no coração".
Fátima Roque registou até aqui coisas que a animaram e que distinguem
Luanda daquilo que era a cidade há uns anos: "Gostei de ver o clima
completamente distendido, gostei de ver as pessoas mais felizes, sem
ressentimentos, sem ódios, mais pacíficas e pacificadas. Acho que há mais
tolerância. Pode-se, eventualmente, pensar que estarei a ser inocente, e
provavelmente está-lo-ei a ser, pois não fui aos subúrbios nem às províncias,
não sei se aquilo que dizem que tem acontecido, isto é, intimidações, se é verdade ou não, mas o que me foi dado ver,
foi positivo, e é isto que guardo no meu coração, na minha mente como pessoa
racional que não é inocente, nem ignorante. Sou uma pessoa que sabe o que é
honesto, e o que é farsa".
Antiga responsável pela estratégia económica de Jonas Savimbi para
Angola, Fátima Roque, diz que está hoje como estava há sete anos quando foi
afastada da UNITA, ou seja, sem partido: "Não tenho relação nenhuma com a
UNITA. Apenas tenho muitos amigos".
Sem esconder a surpresa que
a notícia provocou, o porta-voz da
UNITA Adalberto da Costa Júnior, preferiu não dramatizar: "Estou a ter a
novidade, pois não sabia. A senhora Fátima Roque foi uma grande companheira de
percurso, com militância permanente. É uma pessoa muito amiga, muito próxima,
sei que está em Luanda, não tive ainda oportunidade de a encontrar mas só ela é que poderá dar uma resposta
objectiva. É muito possível que tenha sido convidada de forma muito concreta.
.Há umas semanas atrás, um ilustre que esteve num comício do MPLA, dizia, e
cito: "Eu estive lá só como músico, não pus camisola nenhuma".
Portanto, penso que, estando em campanha, é preciso ter sempre alguma cautela,
pois pode não se r significativo. Pode ser uma presença ocasional, ou não".